O meu avô encadernador e multifuncional

 

O encadernador de Poços de Caldas

 

Sim, meu avô era encadernador :)

E era também mineiro, de Guaxupé.

Morador de Poços de Caldas-MG por décadas, onde conheceu e casou-se com minha avó Esther, que mora hoje aqui em RioPreto e completou seus 96 anos.

Aliás, meu avô era multifuncional.

Foi radialista e funcionário da Rádio Libertas de Poços de Caldas (visitei-o algumas vezes na rádio). Era cronista e escrevia para o jornal de Poços, e tinha uma cadeira na Academia Poçoscaldense de Letras. Gostava de teatro, onde chegou a fazer algumas participações em apresentações. Era simpatizante de Ufologia, amava ouvir música clássica pelo seu computador nos canais do YouTube, e bons filmes. E por último, mas não menos importante, era o Papai Noel oficial da cidade (a longa barba era natural), onde desfilava em cima do caminhão dos Bombeiros pelo centro de Poços na época de Natal, jogando balas e doces aos que o assistiam pelas ruas.

 

Ludgero Borges

Duas coisas das quais sempre me lembrarei no seu Borges: o capricho com que fazia tudo, e a criatividade.

Ele faleceu recentemente, em 2020, aos 94 anos: 1 mês antes de completar 95.

Mantinha sua oficina de encadernação em casa, onde fazia trabalhos sob encomenda e prestava serviços de restauração de livros na Biblioteca Municipal de Poços de Caldas.

Ele mesmo fabricava muitas das próprias ferramentas, pois era um inventor nato. Era adepto de material reciclado – reutilizava papéis e papelões para produzir blocos e cadernos de anotações. Todo tipo de material que caía em suas mãos logo encontrava uma nova utilização ou passava a fazer parte integrante de uma nova ferramenta.

Navegando aqui pelo oráculo Google com o nome do meu avô digitado no campo de busca, deparei-me com esta preciosidade: um trabalho sobre o tema “Editoração”, do curso de Letras da UFMG, organizado pela prof. Sônia Queiroz.

Neste trabalho de Sônia (link no final), Ludgero Borges foi citado em dois textos bem interessantes, que coloco a seguir. O primeiro, uma narrativa onde o professor César G. Guimarães, da UFMG, discorre sobre a arte e o universo da encadernação e descreve fatos sobre meu avô. E o segundo, uma crônica de autoria própria do meu avô.

Gratidão, Sônia Queiroz, pelo reconhecimento ao meu avô querido!

 

O guardião de Babel em Poços de Caldas

César Geraldo Guimarães

A oficina de encadernação, com seu conjunto de ferramentas, papéis, tintas e livros, lembra o trabalho paciente dos monges copistas na Idade Média. O trabalho é minucioso e demanda tempo.

Colocando os mais diversos materiais de feitura de seus instrumentos, o encadernador é um bricoleur que, refazendo a colagem e a costura dos livros, devolve a estória à circulação geral das linguagens na história.

A oficina é um lugar onde nomes e coisas recriam-se uns aos outros. Retirados de seu contexto cotidiano, os materiais do mundo tornam-se parte de uma montagem guiada pelo prazer de recortar e colar.

A figura de Ludgero, o encadernador, lembra um profeta hebreu ou um rabino. Nada mais apropriado: costuma-se dizer que o judeu é um povo cuja pátria é um livro: a Bíblia. Por ironia, o livro que se encontra sobre a mesa, em reparos, tem o título de A sinistra aventura de Hitler. O subtítulo traz: “Narrada por ele próprio”.

A restauração em ruínas permite o levantamento das ruínas da história. A costura das páginas sustenta a tessitura da escrita. Ao se restaurar um livro, mais do que preservar um documento (com sua aura de original), o que se faz é oferecer ao leitor a oportunidade de tornar-se um bricoleur da história. Retirando-a de uma explicação causal linear e remontando seus fragmentos, o leitor pode desinvestir a história da autoridade do “narrada por ele próprio” e reconhecer o lugar ideológico das falas.

O trabalho artesanal da restauração inverte o ditado bíblico: a letra mata, o espírito vivifica. O restaurador anima a letra e a reenvia ao encontro amoroso com o leitor; devolve o livro a esse lugar no qual o desejo de ler desenvolve sua errância: a biblioteca. A biblioteca é um deserto antes que o leitor venha habitá-la. Ela fantasmagoriza os autores, transformando-os em letra, número, nome: “a letra mata, o espírito vivifica”. Lugar sagrado, já que o livro é um lugar de morte. Ele fala de um outro que nunca está ali. É sobre essa falta que se realiza a leitura: o leitor deixa-se seduzir pela possibilidade de continuar a história.

O livro encadernado (salvo da destruição) reconcilia o leitor com seu objeto de desejo. Entre a mão que vira as páginas e o olhar que persegue as palavras, o Eros da linguagem envolve o leitor. Não é esse um dos motivos (talvez o mais forte) para que se mande encadernar ou restaurar um livro? Não se deseja apenas conservar sua materialidade, mas resguardar um certo imaginário. Às vezes, imaginário que se quer o mais secreto: diários, cartas de amor, escritos herméticos. Ou o mais trivial: receitas culinárias. Ou então um conjunto de fotografias. Sempre a vontade de tornar a letra, o traço, a imagem duradouros. Desejo de vencer a morte, resistir ao desgaste do tempo.

O caderno em que Ludgero anota os pedidos revela a variedade das preferências dos leitores, como demonstram os títulos abaixo:

• As sandálias do pescador, Morris West

• As idéias de Getúlio Vargas (não há referência sobre o autor)

• A vida de Carlitos, Georges Sadoul

• As primaveras, Casimiro de Abreu

• Astrologia (não há referência sobre o autor)

• Brasil/Oriente (tablóide)

• A vida errante de Jack London, Irwing Stone

• O livro dos velhos, Dr. Mário Mourão

• Encontro com a morte, Agatha Christie

Essa lista poderia se prolongar interminavelmente. Por saber disso é que a lombada dos livros encadernados traz num só signo as iniciais de Ludgero Borges e o símbolo do infinito. Afinal, lugar de errância, caça aos substitutos do desejo, a leitura permite o acesso a uma memória que é a da humanidade. (Assim se referia Alexandre à Biblioteca de Alexandria.)

Um outro Borges, aquele Jorge Luis, afirmava que o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Para esse autor que sempre se quis um leitor, o mundo é a “Biblioteca de Babel” (tema e título de um de seus contos). Nesse conto, afirma-se que a Biblioteca é o outro nome do universo. Infinita, ela dissemina incessantemente seus livros, bibliotecários, leitores. Em Poços de Caldas, esse guardião e leitor assumiu a figura de Ludgero Borges, ex-radialista, ufólogo, cronista, criador de aranhas, contista e restaurador dos livros da Biblioteca Municipal.

Se os tempos atuais substituíram a experiência pela paródia ou pelo pastiche, se o mundo é cada vez mais de papel e se toda memória é artificial (constituída de ficções e de citações), resta a leitura como uma aventura pequena e anônima, resguardada por todos aqueles que fazem o livro. E é esse trabalho que, na edição industrial dos livros, torna-se cada vez mais homogeneizado e impessoal. Os artesãos desaparecem sem deixar pistas.

Ludgero, ao anotar em seu caderno o título do livro de Bernardo Guimarães, O ermitão de Muquém, escreveu (ou meus olhos é que leram?) “O ermitão de ninguém”. No trocadilho, todo o anonimato daqueles que só vivem a cultura sob a forma da necessidade.

Referência HITLER, Adolf. A sinistra aventura de Hitler. Porto Alegre: Meridiano, 1941.

 

O outro texto inserido pela prof. Sônia em seu trabalho, e que até então eu desconhecia, é a crônica escrita pelo meu avô.

É uma crônica linda, que revela toda a essência e a arte de um encadernador...

 

A crônica do encadernador

Ludgero Borges

Uma tarde encontrava-me na oficina nos fundos de minha casa, quando adentrou uma senhora de minha idade. Suas faces serenas denotavam um “quezinho” de preocupação. Abraçada ao colo, ela trazia uma caixa de papelão amarrada com uma fita. Com uma fala agradável, mansa, perguntou timidamente se eu podia encadernar “umas coisas”…

– Claro, minha senhora – respondi, oferecendo-lhe uma cadeira. Percebi que ela se preocupava com o fato de alguém poder ouvir o que tinha a dizer. Tranquilizei-a fechando sem trancar o portão de ferro no fim do corredor, para que ninguém pudesse entrar sem que víssemos de longe. Seu semblante denunciou a aprovação do gesto e então perguntei do que se tratava.

– Tenho umas coisas que gostaria de enfeixar… Para guardar mais seguro… O Senhor faria isso para mim?

Sendo observador e lidando com o ser humano, a gente acaba sendo psicólogo autodidata e aprende a “ler” fisionomias, gestos, entonações, inflexões de voz, etc. Principalmente o etecétera. Sinais imperceptíveis para outros e até para o próprio executante. Eu havia observado que minha cliente tinha uma atenção especial para com aquela caixa de papelão e pensei logo: “Ali devem estar instrumentos importantes ou um livro raro esfacelado, talvez uma correspondência preciosa…” Meu sexto sentido se ateve a esta última hipótese, pois o cuidado tinha um toque de carinho.

Na verdade, ela não sabia como começar. Mas eu soube. Coloquei a seu alcance uns trabalhos e algumas mostras de papéis e percalines, enquanto rápido preparava duas chávenas de mate para nós, e abri um estojinho de cigarros que lhe ofereci.

– Muito obrigada. Nunca fumei. Mas o senhor fuma cachimbo e gostaria que o fizesse agora.

Por trás daquelas simples palavras, escondia-se aquele prazer de ver alguém cachimbando. Quem sabe como alguém… Agora, já mais desinibida, foi desamarrando a fita que envolvia a caixa de papelão, retirou dois anéis de elástico, a tampa. Dentro havia um pacote envolvido em papel que outrora fora colorido. Seus gestos eram comedidos e suaves como se estivesse manuseando um cesto de ovos de beija-flor ou pétalas de rosas, que não pudessem sequer ser arranhadas. Enquanto isso, falava como quem estivesse se confessando ao próprio Papa.

– Eu tenho umas cartas muito gratas – precisava dizer? – que gostaria de encadernar… São as coisas mais importantes que possuo… O senhor pode cobrar o que quiser… Nunca ninguém as leu, por isso…

– Esteja certa, minha senhora – acudi –, sou discretíssimo. Ninguém mais vai tocá-las.

– Acredito.

A esta altura, desembrulhava um maço de cartas em envelopes amarelecidos, uns poucos recortes de jornais, tudo marcado pela página do tempo. Abriu devagarinho, um por vez, desdobrando as cartas, acertando os cantos, alisando cada papel carinhosamente que fazia crer estar afagando os cabelos de alguém. Sabia de cor todos os dizeres, pois falava neles antes mesmo de abrir os papéis. Não o que estava escrito ali, mas falava cada vez mais baixinho dos momentos por eles representados. Acariciava os papéis como se fossem o rosto do ser amado. O corpo daquela senhora estava ali na minha oficina, mas seu espírito, sua alma, divagavam pelos locais evocados por aquela “colcha de retalhos”.

Eu mesmo senti-me enleado naquela história. Mesmo quando seu rosto se voltava para mim, notava que não me via e sim o seu personagem. Sem perceber, aquela senhora contava-me toda a sua vida de trabalho, aventura e de muito amor. Em certos momentos, seus olhos brilhavam como se reluzindo para o ser amado. Depois, seu semblante se carregava e o franzido da testa indicava tristeza. Outras vezes percebi até mesmo momentos de dor, logo desfeitos ao abrir a carta seguinte. Aí voltava seu sorriso e o olhar cintilava como se o amante estivesse chegando de uma viagem. Sua voz, às vezes, entrecortada por soluços e inflexões, denunciava uma saudade infinda.

Terminou de abrir todos os envelopes e desdobrar as cartas. Embora seu rosto fosse de um encanto único, ela agora chorava. Por muito que eu viva, essas imagens jamais sairão do meu cérebro. Eu não era mais um encadernador de livros e, quase num afago, enxuguei-lhe as lágrimas. Ela sentiu um pequeno choque ao descobrir que sua cabeça encanecida se apoiava em meu ombro. Acho que também chorei…

Ambos refeitos daquele sonho real, retomamos o assunto:

– Minha senhora, acredito que não deveria confiar essas cartas a ninguém. Que tal conservá-las num cofrezinho bem seguro?

– Quero que você as encaderne.

Penso que não estranhei ela ter tirado o “senhor” da conversa e insisti:

– Se eu ensiná-la a fazer isso, quem sabe…

Cortou-me a fala:

– Já disse que você deve encaderná-las para mim. Não recuse. Sei que fez um trabalho parecido para a professora Fulana de Tal e outro para o comendador Sicrano. Foi ele quem indicou sua oficina.

Bem. Aquilo, embora dito educadamente, tinha uma firmeza que não ousei contestar.

– Está bem, vou fazer esse trabalho. Quero apenas propor que a senhora passe aqui, de vez em quando, para dar alguma orientação, ou que telefone à noite para a Rádio Libertas, quando falaremos a respeito.

Recomposta da emoção, empoou um pouco o rosto para disfarçar as estrias das lágrimas e então acompanhei-a até o portão.

Apressei o que vinha fazendo e, em seguida, atirei-me de corpo e alma na encomenda. Por mais que evite, é quase impossível um encadernador não ler pelo menos alguns trechos do que encaderna, para montar o livro. Neste caso em especial, fugi à regra e, não aguentando a tentação, li todas as cartas enquanto armava o volume. Minto. Não li. Fiquei tão envolvido, que vivi aquela paixão!

Nunca tinha lido nada igual, nunca tinha visto coisas tão lindas dirigidas a uma pessoa! Sem obedecer rimas ou regras verdadeiramente poéticas, aqueles dizeres que vinham do coração de um homem apaixonado faziam inveja a muitos poetas. Minha mais recente cliente era o pivô, a musa inspiradora daquele amor perdidamente lindo, puro, incomparável. Pena não existirem cópias das cartas que ela respondia.

Enquanto encadernava, repassei tudo aquilo muitas vezes. Fiz eu mesmo um papelão especial e decorado para terminar o livro. Preparei uma caprichada caixa de papelão imitando um volume para abrigar aquele poema de amor, um dos mais belos e reais acontecidos entre dois seres.

Combinei dia e hora da entrega por telefone. Lembro-me bem de que, na ocasião, atravessei um minúsculo jardim, subi uns degraus e bati na porta de vidro, que foi aberta prontamente. Ali estava eu diante daquela deusa inspiradora de um amor quase divino. Seus olhos faiscaram ao ver o que eu carregava e, de súbito, arrebatou-o de minhas mãos.

Convidado, entrei o suficiente para que a porta fosse encostada. Minha cliente retirou o volume do estojo, folheou somente duas ou três páginas e apertou o livro sobre o seu formoso par de seios. Ficamos assim em pé, um diante do outro pela eternidade de dois minutos. Ela colocou o livro sobre a mesinha, adiantou um passo, segurou a cabeça do seu amado e deu-lhe o mais ardente dos beijos…

Atônito, sentindo o mundo girar, delicadamente afastei-a, apanhei o volume na mesinha e, com as mãos trêmulas, entreguei-o a ela e retirei-me silencioso. Alcancei a rua sem saber que rumo tomar. Não olhei para trás, porque quis guardar na retina aquele retrato que acabava de sentir.

Respirei profundamente, tentando colocar em ordem minha cabeça que girava. Decidi-me. Enchendo o tórax de oxigênio, caminhei em direção ao bar mais próximo para tomar uma dose tripla da bebida mais forte que pudesse encontrar. E enquanto caminhava fui possuído por um tremendo orgulho. Eu era, naquele momento, o maior encadernador de livros do mundo!

 

E sim, ele era o maior encadernador de livros do mundo!

 

Para conhecer este trabalho completo de Sônia Queiroz, acesse o link

http://www.letras.ufmg.br/padrao_cms/documentos/eventos/vivavoz/Editora%C3%A7%C3%A3o%20Arte%20e%20T%C3%A9cnica_site.pdf


 


 



Comentários

  1. A crônica, assim como o conto, são minhas leituras preferidas. Esta crônica emocionante foi muito bem escrita e prende a atenção do início ao fim!

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    1. Que legal! Sim, prende muito a atenção, e ao mesmo tempo é de uma delicadeza sem par...

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  2. Que pena que muitas pessoas não valorizam profissões tão belas como esta. É maravilhoso ver o trabalho desses dedicados profissionais que, pacientemente, que trazem de volta à vida artigos importantes da cultura, da música e da arte em geral. Acho belíssimo o trabalho dos restauradores, dos encadernadores, dos recuperadores de obras de arte em todos os sentidos. É o resgate da nossa história que deve ser passada adiante e jamais deve ser esquecida!

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    1. Pois é, Amarildo, é uma pena mesmo que tais profissionais não sejam valorizados... Mas, assim como o livro físico sobreviverá, apesar da era digital, acredito que os restauradores e encadernadores, mesmo em menor número, também resistirão. É uma questão de paixão!! De uns tempos pra cá tenho notado inclusive um aumento de artistas apaixonados pela encadernação artística/artesanal, e se dedicando a essa arte :)

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