Idades Antigas e Média

Uma Breve História da Encadernação


 Idades Antiga e Média

 

A encadernação é uma das mais antigas práticas de conservação preventiva de documentos e informações escritas.

Resumidamente, surgiu no antigo Egito (1450 a.C.). Foi depois se aperfeiçoando durante o Império Romano (a partir de 27 a.C.) e desenvolveu novos métodos e formas até nosso período contemporâneo, com encadernações em versões modernas.
Para entendermos a evolução por trás da encadernação, temos que começar por outro nicho da história ao qual ela se entrelaça e tem uma profunda relação: a escrita. Não há como discorrer sobre um assunto sem abordar o outro...

Desta forma, aqui falaremos sobre o início da escrita na história da humanidade e, ao mesmo tempo, sobre como arquivar fisicamente todo o material escrito, ou seja, as formas de encadernação.

 

Desde quando escrevemos?

Desde nossa ancestralidade havia a necessidade de comunicação, que se iniciou através da oralidade; em seguida vieram símbolos e desenhos, surgindo, por fim, a escrita.

A escrita causou uma revolução tão significativa nas comunicações que diversos historiadores estabeleceram o encerramento da Pré-História e o nascimento da História no período em que o homem começou a escrever. No entanto, há estudiosos que não usam o termo Pré-Históricos para designar os povos que viveram neste período: eles optam por denominá-los como pré-letrados ou povos ágrafos

O período pré-histórico durou aproximadamente 5 milhões de anos. Ele tem início com os primeiros registros históricos e se estende até aproximadamente 4000 a.C. 

Uma das mais antigas formas de comunicação é a pintura rupestre (assim chamada porque era feita sobre a superfície de rochas), encontrada no mundo todo, principalmente em paredes de cavernas. Há desenhos encontrados por pesquisadores que datam de aproximadamente 40 mil anos atrás.

 
Pinturas Rupestres, Parque Nacional Serra da Capivara,
no sudeste do Piauí: 6 a 12 mil anos

Um sistema mais eficiente de escrita apareceu por volta de 3500 a.C., quando os sumérios, na Mesopotâmia, desenvolveram a escrita cuneiforme.

Os registros da época eram feitos sobre tábulas de argila utilizando-se uma ferramenta, a cunha (por isso o termo: cuneiforme), num processo parecido com a escultura. Os sinais representavam uma espécie de pictogramas, e eram dispostos no suporte de forma vertical. Tais sinais possuíam sons silábicos, e posteriormente começaram a ser escritos na horizontal.

Escrita cuneiforme

Mais ou menos neste mesmo período, 3000 a.C., surgiram os hieróglifos no Egito. Essa escrita era dominada apenas por pessoas poderosas da sociedade, como membros da realeza, escribas e sacerdotes. É a escrita organizada mais antiga de que se tem conhecimento. A escrita era executada sobre pedra e outros materiais rústicos, e mais tarde sobre o papiro.


Texto em hieróglifo

Por volta de 2500 a.C., ainda no Egito antigo, foi desenvolvido o papiro - o precursor do papel. Eram utilizados rolos de papiro como suportes de escrita.


Papiro, antigo Egito

Este papiro era produzido a partir de uma planta aquática chamada Cyperus papyrus. 

Papiro, Cyperus papyrus

Abundante às margens do Rio Nilo, esta planta tinha seu caule cortado em finas lâminas. Depois de secas, as lâminas eram arrumadas em fileiras horizontais e verticais, sobrepostas umas às outras. As folhas obtidas eram marteladas, alisadas e coladas lado a lado para formar uma longa fita, que era depois enrolada. Sobre esta superfície era possível escrever e desenhar.

Trama de papiro

O pergaminho, por sua vez, superou o papiro, sendo sua versão mais avançada.

Surgiu por volta do século II a.C na região de Pérgamo, mais ou menos onde hoje se localiza a Turquia. Por isso o nome pergaminho. É também conhecido pelo termo latino vellum, ou papel velino.

Pergaminho

Feito de pele de carneiro ou outros animais, era uma opção mais viável do que o papiro por ter maior flexibilidade, solidez e resistência, o que permitia que fosse raspado e apagado algum erro de escrita.

As peles passavam por um banho de cal, retirados os pelos e eram colocadas para secar em uma moldura de madeira. Depois de secas, as peles eram lixadas com um pó fino de pedra pomes.

O pergaminho era então cortado em folhas retangulares que, como as folhas de papiro, eram unidas umas às outras pelas extremidades para poder ser enroladas.

Tratava-se de um material nobre, usado para documentos muito importantes. Nos mosteiros católicos, os monges reproduziam textos religiosos neste suporte.

No século I d.C. descobriu-se um modo para guardar pergaminhos muito mais conveniente do que os rolos. Cada folha retangular passou a ser dobrada uma, duas ou três vezes, cortando-se as bordas e formando assim um fólio. Essas folhas eram então encadernadas em capas de madeira fina e lisa. Este volumen, como era chamado, deu origem aos livros, tais como são conhecidos atualmente.


Volumen

O códex, ou códice, é um avanço do rolo de pergaminho, e gradativamente substituiu este último como suporte da escrita.

Códice (do latim caudex, casca de árvore - códex) era composto de um conjunto de placas de madeira ou pele de animais, neste caso o pergaminho, articulado por dobradiças. Ou ainda folhas de pergaminho dobradas e costuradas ao longo de uma aresta, constituindo uma espécie de livro. Foi o formato que se sistematizou no Império Romano a partir do século I d.C., e é considerado o precursor do livro.


Códex ou Códice

Na verdade, o códice surgiu entre os gregos como forma de codificar as leis, e foi aperfeiçoado pelos romanos nos primeiros anos da Era Cristã. 

O códice medieval foi o suporte de escrita que dominou o universo intelectual da Idade Média.

Páginas de códices medievais

Tecnicamente, mesmo as brochuras modernas são códices, mas editores e estudiosos reservam este termo para livros manuscritos produzidos desde a Antiguidade tardia até a Idade Média.

O estudo acadêmico desses manuscritos, do ponto de vista da encadernação, é chamado de codicologia. O estudo de documentos antigos em geral é denominado paleografia. O período medieval foi a época mais marcante para o aperfeiçoamento da arte da encadernação.


Encadernações e manuscritos medievais

Nessa mesma época, século I d.C., os chineses começaram a fabricar o papel.

A palavra papel vem do latim papyrus e faz referência ao papiro. E, diferentemente do papiro, o papel apresentava excelente resistência a várias formas de encadernação, fato que contribuiu enormemente para seu sucesso como suporte de registros históricos.

O papel foi inventado na China por T’sai Lun, alto funcionário da corte do imperador Chien-Ch'u, da dinastia Han (206 a.C. a 202 d.C.). Ele fez uma mistura umedecida de casca de amoreira, cânhamo, restos de roupas, e outros produtos que contivessem fibras vegetais. Bateu a massa até formar uma pasta, peneirou-a e obteve uma fina camada, que foi deixada para secar ao sol. Depois de seca, a folha de papel estava pronta! A técnica, no entanto, foi mantida em segredo, pois o comércio de papel era bastante lucrativo.


Em 751 d.C os chineses tentaram conquistar uma cidade sob o domínio árabe e foram derrotados. Nessa ocasião, alguns artesãos foram capturados e a tecnologia da fabricação de papel deixou de ser um monopólio chinês. Mais tarde, os mouros invadiram a Europa, mais precisamente a Espanha, e lá deixaram uma forte influência cultural e tecnológica. Foi assim que os espanhóis conheceram também a técnica de dobrar papéis, conhecida como papiroflexia.


Ilustração dos processos de produção de papel

O processo básico de fabricação de papel criado por T’sai Lun foi aprimorado ao longo do tempo, o que possibilitou uma imensa diversidade de papéis quanto às texturas, cores, maleabilidade, resistência, etc.


A fibra vegetal citada anteriormente é a celulose, um dos principais constituintes da plantas e um polímero formado de pequenas moléculas de carboidrato, a glicose. A celulose pode também ser usada para a fabricação de tecidos quando extraída do algodão, cânhamo ou linho. Potencialmente, qualquer planta produtora de celulose é fonte de matéria-prima para a produção de papel.

No século XIII o papel começa a ser fabricado em diversos países da Europa, substituindo gradualmente o pergaminho, devido aos custos menores e simplicidade de manufatura. Até então, tanto na China como nos países islâmicos o processo era completamente manual. Isso mudou no continente europeu, pois, ao utilizar refugo de linho para a fabricação de papel, surge a ideia de adaptar os moinhos de água para transformar os trapos em polpa. Desse modo, logo no final da Idade Média, 1520 d.C., algumas operações de fabricação do papel já utilizavam processos industriais.

Paralelamente a este progresso na produção de um suporte de escrita, aconteceu também uma revolução na maneira de se escrever sobre este suporte.

No século XV o inventor alemão Johannes Gutemberg criou uma das maiores contribuições para o mundo moderno: a imprensa.


Johannes Gutemberg

Gutemberg revolucionou o modo de se produzir livros. A tipografia permitiu que os textos, antes manuscritos, fossem impressos a partir da elaboração dos tipos - letras móveis produzidas em cobre e alocadas em uma base de chumbo, onde recebiam a tinta e eram prensadas no papel.

Antes da imprensa, os livros eram construídos à mão, artesanalmente, com escrita cursiva, geralmente à pena. Um códice demorava um mês para ficar pronto; com os tipos móveis, dezenas de códices eram feitos na mesma margem de tempo.

Dessa maneira, a imprensa passou a influenciar a produção e divulgação de conhecimento, contribuindo para um maior desenvolvimento não apenas da produção literária na Europa, mas da metalurgia e da produção de papel.

A máquina de impressão de Gutemberg

Com o passar do tempo, a invenção de Gutemberg foi ganhando espaço e se difundiu pela Europa, onde foi aperfeiçoada, e contribuiu para a disseminação de ideias por meio da publicação de periódicos e de livros.


Sala no Museu Gutemberg, no centro antigo da cidade de Mainz, Alemanha

A máquina de escrever também foi outra importante invenção, tendo sido o primeiro uso da mecânica na escrita.

Máquina de escrever antiga

O primeiro protótipo funcional surgiu em 1867, pelas mãos do tipógrafo americano Christopher Sholes. A máquina era feita de madeira, e as teclas eram presas com hastes de arame, escrevendo só em letras maiúsculas.

Os aperfeiçoamentos foram inúmeros ao longo dos anos – uns projetos foram bem sucedidos, outros não...


O salto na evolução foi a máquina de escrever eletrônica, nascida mais recentemente no séc XX, no início de 1960, tornando a escrita precisa e veloz. As máquinas de última geração literalmente escreviam sozinhas: tinham memória, recursos de programação e, acopladas a computadores, transformavam-se em impressoras.

Máquina de escrever eletrônica Olivetti

A partir de 1990, com a popularização dos computadores e impressoras no mercado, as indústrias de máquinas de escrever começaram a sentir sua decadência devido a redução da demanda.

As pessoas começaram a adotar os computadores e impressoras como alternativa mais eficazes para a produção e impressão de seus textos.

Impressora multifuncional Epson

A sociedade começava a perceber os avanços que as novas tecnologias trouxeram e os benefícios que um computador oferecia para edição de um texto.

Junto a isso identificaram a extrema facilidade que uma impressora proporcionava, afinal era possível imprimir os documentos elaborados no computador e personalizar suas letras, fontes, tamanhos e cores.

Impressora multifuncional Canon

Hoje em dia as máquinas de escrever, especialmente os modelos mais antigos, são objeto de desejo de muita gente. pelo resgate de um tempo analógico.

Máquinas de escrever vintage tornaram-se altamente valorizadas, e algumas marcas viraram itens de colecionador. Há quem ame o objeto, seja para colecionar ou como uma peça de decoração (e recordação). E há quem utilize o equipamento para o que foi originalmente concebido: escrever cartas e poesias...



E então, o que achou desta pequena viagem na história?

Perceberam o quanto na humanidade a escrita e seu desenvolvimento estão totalmente interligados com as formas de encadernação ao longo da história?

Você tinha conhecimento de tudo isso?

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